quarta-feira, 17 de março de 2010

Os falíveis do futebol

Ontem, dia 16 de março, ao ligar a televisão, mais especificamente no canal SporTV, me deparei com uma grata surpresa. O programa Redação SporTV tinha como convidado o escritor João Ubaldo Ribeiro, autor de Vida e Paixão de Pandornar, o Cruel, entre outros livros de sucesso. “Pandornar” é, porém, um livro infanto-juvenil, que marcou bastante minha infância. É um livro que mexe muito com a imaginação de qualquer garoto naquela fase chamada de pré-adolescência. Afinal, o livro é sobre a imaginação. Imaginação de um garoto, que nas agruras dessa fase, sonha em ser: astuto, forte, valente e, principalmente, popular. Segundo João Ubaldo, faz parte do futebol, algumas imprecisões humanas que, que dão graças ao futebol. Se o futebol se torna uma coisa parecida com uma ciência exata, quase infalível, perde a graça. É preciso haver um pouco de falibilidade. Concordamos planamente com essa noção, não é? Afinal nós gostamos de futebol por isso. Realmente, se o futebol fosse um esporte ausente de personagens falíveis, se tornaria muito chato. Imagina uma corrida de Fórmula 1 onde não ocorra nada que destoe da normalidade. Nenhuma atrapalhada nos box, nenhuma ultrapassagem arriscada na última curva, até mesmo uma batidinha de leve. Agora imagine o futebol sem frango do goleiro, sem gols perdidos na cara, sem canelada, sem pedaladas e sem erros do juiz. E sem a mãe do juiz! O criador de Pandonar ainda cita outro exemplo, dizendo que a decisão de um lance duvidoso, ou a validação de um penalty, de um gol, não pode ser feita utilizando um máquina, um fotosharp. Isso não é corrida de cavalo!

Futebol não é corrida de cavalo, nem Fórmula 1, muito menos luta livre, Boxe ou Vale-tudo. Porém, logo após a agradável participação do escritor baiano, cenas vergonhosas de atos frutos da falibilidade humana foram exibidas no programa matinal do Sportv.  Ao término da partida entre Canedense e Vila Nova pelo campeonato goiano, jogadores e torcedores trocaram agressões, diga-se de passagem, muitas agressões. A guerra incluiu até a explosão de uma bomba no vestiário do time da capital goiana. Com isso, um jogador do vila saiu ferido na perna, uma cena muito triste de se ver no esporte, mesmo no falível mundo futebol. Segundo informações da imprensa, havia inclusive um vereador da cidade de Senador Canedo envolvido na confusão. Nada contra vereador, prefeito, deputado, governador ou presidente que se envolve com futebol. O problema é quando esse torcedor/político utiliza o seu poder para coagir e agredir árbitros e equipes adversárias. Lembrando que esse poder foi adquirido através do voto do povo, que, por sua vez, espera dele outra coisa. Vale lembrar que há poucos dias fato semelhante ocorreu em outra cidade goiana. O time local jogava contra outra equipe do interior e perdia por 1 a 0. No intervalo da primeira para a segunda etapa, o presidente de honra do clube local e prefeito da cidade invadiu o gramado acompanhado por um segurança (sem honra) que agrediu o arbitro da partida. Parte da imprensa esportiva do estado Goiás minimizou o caso, inclusive criticando o fato do ministério público ter tomado providências contra o ato do prefeito e de seu segurança no sentido de que uma punição exemplar, como o próprio nome diz (mas neste caso não podemos fugir da redundância), serviria de exemplo. Um comentaria chegou a dizer que os promotores estavam sendo cruéis. Digo que ao comentarista falta um pouco de ponderação. Se ele é simpatizante do prefeito, julgue-o pelo ato, não pela posição política. A falibilidade é indispensável ao futebol, no entanto, tem limites. Quanto a esses políticos/torcedores nada contra, como já disse, mas se ficassem longe do futebol não seria nada mal. Afinal, na política, onde deviam falhar menos, eles já falham demais!!! Neste caso, para ter certeza disso sequer é necessário apelar para ciências absolutamente infalíveis, como a matemática.


Um comentário:

  1. Juciano, que belo texto!

    Parabéns, cara, sem puxar saco nenhum, ficou com qualidade de publicação jornalística.

    Valeu a pena ler e pensar um pouco sobre a tal necessidade da "falibilidade" no futebol, ainda mais tendo João Ubaldo como inspiração.

    ResponderExcluir